sábado, 16 de junho de 2007

Reaja

Sem grana pro ônibus, resolvi caminhar de volta para casa. Atravessava o gigantesco gramado da Esplanada imaginando como alcancei tanto fracasso profissional. Talvez por odiar tudo o que fiz, talvez por desacreditar no sistema capitalista sectário. A cabeça, quente do sol, pulsava de preocupação.
Avistei três rapazes vindo ao meu encontro. Estranho. Um branquelo com gel no cabelo loiro se adiantou.
- Assalto! - Um canivete surgiu.
Analisei-os. Além do alemão, os outros também tinham uns 20 anos e o maior uns 70 quilos. Pareciam nervosos. Estavam todos na minha frente, o primeiro erro.
- Pegou o cara errado, negão. - Pedi calma com a mão esquerda e com a direita achei as chaves no bolso. O chaveiro era o meu canivete. - Não tenho dinheiro.
- Dane-se. Passa a carteira! - Falou o alemão. Era o líder.
Há anos eu não era assaltado, desde que cresci. Agora, com 1.82 metros e 88 quilos, os bandidos sempre escolhiam outro alguém menor, por segurança.
Num confronto contra vários adversários o primeiro ato deve ser a eliminação sumária de um deles: se desarmados, o mais forte; se armados, o mais fraco.
Puxei o canivete e avancei no sujeito mais próximo, abrindo um talho em seu braço. Sangrando ele dificilmente ajudaria os comparsas no resto da briga.
Encarei os restantes. Continuavam na minha frente, o mesmo erro. Se atacassem separados teriam a vantagem numérica, daquele jeito eram galinhas mortas.
Afastei-me enquanto o ferido era socorrido, outro erro. Esperaram meu próximo passo. Abaixei-me até uns pedregulhos. Zuni um no rosto do alemão, que se protegeu com o braço. Arremessei outro nas costas do mala de 70 quilos. Joguei ainda outras pedras, mas passaram longe dos alvos que fugiam correndo pelo gramado. Até pensei em persegui-los, mas ficaria suado. E se os alcançasse, o que faria? Não poderia matá-los à luz do dia no meio de Brasília.
Limpei o canivete com as folhas de uma árvore. Sangue de malandro merece atenção, quase sempre é contaminado. Voltei à caminhada e às preocupações. Minha carteira vazia continuava no meu bolso.
A cabeça ficou mais quente ao pensar nas reprimendas que levaria ao contar que reagi a um assalto. Cartilhas da polícia diziam para nunca atacar os assaltantes, o governo recrudesceu o desarmamento dos cidadãos e a bandidagem se organizou, mantendo suas armas ilegais e regozijando-se da instrução policial, afinal, facilitava para eles o povo acovardar-se como ratos. Tudo contribuía para a população sofrer como o Jerry nas mãos do Tom.
Esqueceram-se, contudo, que o esperto ratinho quase sempre se dava bem ao final do desenho. Ele reagia! Oras, aceitar docemente agressões é uma atitude política daqueles que desejam favores após uma ingrizia, uma síndrome de Estocolmo simplificada, é estupidez, o mesmo que agradecer o roubo.
Ouvi uma pedra quicar ao meu lado, procurei sua origem e vi que os salafrários voltavam ensandecidos e munidos de paus. Não deviam estar acostumados a reações, sentiam-se humilhados.
Resolvi reagir novamente: corri tão rápido quanto pude. Sabia que vencera o primeiro embate por conta da surpresa, no segundo talvez me estrepasse.
Sim, reagir era a solução. Nada de esperar as coisas se acertarem com o tempo. Eu tinha que reorganizar minha vida e arrumar um ofício que me desse satisfação, além de dinheiro suficiente. Andar a pé já estava perigoso.

3 comentários:

André Felipe disse...

Com tantos blogs em seu perfil, não sabia quais escolher. Decidi ver apenas aqueles que você mantém sozinho.

Nicole Louise disse...

Esse texto é de uma riqueza de detalhes e de uma frieza... categórica! (rs). Adorei.

Heterócéfala

Pablo Pamplona disse...

ótimo registrto, mão branca! só acho que infelizmente, a realidade é mais cruel. Não vejo o povo como o Jerry, de modo algum. Em maioria, sabemos, são todos covardes...